Publicado em 01/10/2009
Design automobilí­stico fora das grandes montadoras
Créditos por Por Aloysio Coelho, projetista de carrocerias, Por João Paulo Cunha Melo*

Design automobilístico fora das grandes montadoras

  Artigo escrito para a revista ART MOTORES, edição julho de 2008, por Aloysio Coelho, projetista de carrocerias há 32 anos, com passagens pela a Ford, Brasinca e Mitsubishi

 

A história dos veículos esportivos brasileiros é rica em exemplos como Puma, Miura, Adamo, MP Lafer e outros que fizeram sucesso entre os anos 60 e 80 mas que, infelizmente não sobreviveram à abertura de mercado que os colocou em confronto direto com a performance e a tradição das marcas estrangeiras.

Hoje são raríssimos os fabricantes nacionais, como a Chamonix, descendente direta da Puma e que há 21 anos exporta réplicas de Porsche, pequenos fabricantes de buggies e a Troller.

Inúmeros motivos levaram estas iniciativas ao fim e muitos deles alheios à capacidade de reação dos fabricantes, como seguidas crises políticas e econômicas. Contudo, a partir de uma visão atualizada de design, alguns destes motivos são claramente identificados e servem como exemplo para novas iniciativas.

O automóvel esportivo é um produto “emocional” e esta característica é levada ao extremo, pois performance e interação com o motorista são premissas de projeto. O comprador de um esportivo, mesmo não sendo um grande piloto, exigirá que seu carro brilhe em competições e avaliações da imprensa.

Da mesma forma, a decisão de produzi-los resulta da iniciativa de idealistas, o que é facilmente percebido em tantas marcas que receberam o nome de seus fundadores: Ferrari, Porsche, Maserati e etc.

Também no Brasil a origem dos modelos citados foi emocional, com a diferença de que na época os conceitos de design e projeto eram exclusividades das grandes montadoras. Os carros nasciam em oficinas, a partir de protótipos que iam sendo aperfeiçoados e modificados até o ponto em que seus criadores julgassem estar prontos para venda.

Partiam do conjunto mecânico de um veículo de série e modelavam em madeira, gesso ou argila a nova carroceria, a partir de simples esboços. Sem projeto, encontravam dificuldade para definir os demais componentes, os processos de fabricação e os requisitos de qualidade. Não se conhecia o custo final do veículo até que ficassem prontas as primeiras unidades, mas, de alguma forma, a reserva de mercado e as altíssimas taxas de inflação mascaravam qualquer relação entre custo, qualidade e preço final.

Diante destas dificuldades a maioria dos fabricantes encerrou suas atividades tendo produzido apenas um único modelo. Após a abertura do mercado, apenas a Troller se destacou como fabricante de veículos especiais, embora se utilizando dos mesmo conceito de desenvolvimento empírico. Após dez anos de atividade e com dificuldade para criar novos produtos, foi vendida à Ford.

Não importando os motivos, os idealizadores destes automóveis tiveram o inegável mérito de criar produtos diferenciados, num mercado extremamente competitivo e sobrevivido a períodos políticos e econômicos completamente instáveis.

Em 52 anos de história, a indústria automobilística brasileira formou profissionais e conhecimento capazes de exportar projetos completos. Felizmente esta cultura extrapolou os limites das grandes montadoras e hoje está disponível em estúdios independentes de design e engenharia, acessíveis aos fabricantes de veículos especiais.

Na criação de produtos complexos como o automóvel, a função do design vai muito além das soluções estéticas e funcionais e a grande vantagem destes estúdios é tratar idealismo e emoção com profissionalismo e foco no negócio.

Criatividade, conhecimento e tradição estão disponíveis. Algumas iniciativas já começam a surgir, mas muito ainda precisa ser feito para voltarmos a ver esportivos brasileiros em nossas cidades e estradas.

*João Paulo Cunha Melo, Designer de produto pela a Faculdade de Belas Artes de São Paulo e sócio da Wide Industrial Design, escreve para o AutoDiário na Coluna Design em Movimento